Rima em Prosa #16: Kamau fala com exclusividade sobre sua participação no Poetas no Topo e sua relação com a música em tempos de pandemia

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Lembrado como um dos símbolos da geração paulista que mudou o rap nacional nos anos 2000, Kamau é o autor de Non Ducor Duco (2008), um dos mais célebres e cultuados discos da cena brasileira. Na ativa desde os anos 90, o rapper é referência para outros MC’s e foi um dos grandes destaques do Poetas no Topo 3.3, o grande encerramento da série de cyphers da gravadora carioca Pineapple Storm. Com mais de 20 anos de carreira, o veterano tem, entre outros trabalhos de destaque, o EP Seis Sons (2014), em parceria com Rashid, e o disco Entre (2012). 

Muito dedicado aos trabalhos, Kamau lançou duas músicas recentemente: Beat Torto, Papo Reto, com Nego Max e Zudizilla, e Sem Promessa, faixa solo. Entrevistado dessa semana na Rima em Prosa, o rapper cedeu um pouco de seu tempo para nos contar detalhes de sua participação no capítulo final de Poetas no Topo, relatar como tem sido sua relação com a música nesta quarentena e para relembrar um pouco de suas memórias de MTV e parceria com Sabotage. Confira:

Poetas no Topo

MM: No final do ano passado, você foi um dos destaques do grandioso Poetas no Topo 3.3. Nesta música você contracenou com veteranos, como Projota e MV Bill, e com jovens em ascensão, como Dudu e Cesar. Você conhecia todo mundo que estava presente na faixa? Como foi essa interação com tantos jovens talentos?

KM: Eu sempre interagi com pessoas mais novas e mais velhas com naturalidade. Me lembro bem que conversava com o mesmo respeito e admiração com KL Jay, meu mentor e professor, e DJ Will, 11 anos mais novo mas sempre conhecedor e apreciador de música como eu. Então essa interação sempre será natural pra mim. Nesse caso específico eu não conhecia todos ali, mas fui recebido com muito respeito por quem eu não conhecia pessoalmente e alguns não conheciam meu trabalho tão bem também, mas sempre é um aprendizado.  

MM: Como surgiu o contato para estar integrando o projeto? O que achou da repercussão?

KM: Surgiram boatos nas redes sociais e o perfil do Poetas 3.3 começou a me seguir no Instagram. Aí Ogi e Rashid foram confirmados e o Ogi deu um alô que o Paulo (CEO da Pineapple) tinha mencionado meu nome e talvez entraria em contato. Quando ele me chamou, fez questão de ressaltar o quanto achava importante minha presença no projeto e acenou desde então a vontade de que eu encerrasse esse capítulo dessa história construída por eles. Quando recebi os beats, não me identifiquei e cheguei a declinar o convite. Não queria alterar o planejamento que eles tinham pra parada. Então o Paulo disse que fariam outra batida se preciso fosse pra que eu me sentisse à vontade. Foi quando sugeri a possibilidade de encontrar um beat do meu gosto e optei por um que eu tinha feito. A repercussão foi dividida entre quem queria que eu fizesse como nos projetos anteriores e quem achou que eu trouxe uma parada nova pro Poetas, o que era minha intenção. Levei o que eu era e fui verdadeiro comigo mesmo. 

MM: Houve alguma proposta da Pineapple para que vocês possam estar desenvolvendo um novo trabalho juntos? 

KM: Até então, não.  

A Propósito e retorno do projeto Avulso

MM: Outra faixa que você participou e foi bastante comentada, foi a A Propósito, com Spvic e Rashid. Essa música trouxe um sentimento nostálgico para os seus fãs mais antigos, trazendo de volta memórias de trabalhos como o EP Seis Sons. Como foi o desenvolvimento dessa colaboração? 

KM: O Geninho do Oriente me deu um alô dizendo sobre o projeto da Boca, produtora da qual ele é um dos cabeças, e disse que queria fazer um “boombap brabo” (palavras dele), e que já tinha convidado Rashid e Spvic. Aí me mandou uns beats e não me empolguei muito nesses. Então, conversando com Rashid e Vic, vi que eles também não estavam 100% suaves com a batida e sugeri procurarmos com produtores que gostávamos. De cara fui falar com Mestre Xim e ele me mandou um único beat. Já falei “é esse!” e partimos daí. Não entendo bem o tal sentimento e nostalgia, porque não fiz nada que já tivesse feito, além de ter eu e Rashid no mesmo som. O refrão foi escrito pelos três juntos e a dinâmica do verso é diferente do meu formato habitual, se é que existe, e eu nunca tinha feito nada com Spvic até então. E achei legal que aceitaram minha ideia de roteiro pro vídeo e chegamos num ótimo resultado.  

MM: Se tratando de nomes com longa estrada no rap, é natural que muitos fãs sintam nostalgia ao ouvir músicas de um período mais antigo de suas carreiras. Você acha que é importante para o artista, de tempos em tempos, revisitar certas estéticas musicais que deram certo em outros momentos de sua trajetória?

KM: Revisitar é escolha de cada um, mas não posso dizer que acho importante. A expressão artística, pra mim, é a mais verdadeira possível. Eu equilibro o fato de manter minha essência com a vontade de não me repetir. A não ser que essa repetição seja intencional. E ainda assim acabo fazendo diferente. Cada pessoa se relaciona com a arte de uma forma. Às vezes a música é uma máquina do tempo que te leva de volta para aquele momento que você ouviu um som pela primeira vez. Mas você já não é mais aquela pessoa. Não tem como esperar que o artista também seja. Eu como fã entendo isso e como artista busco esse progresso desde o primeiro momento.  

MM: Outra colaboração recente, é o volume quatro do projeto Avulso, que você tem lançado cerca de uma vez por ano (ou quase). Como foi trabalhar com Nego Max e Zudizilla?

KM: São dois artistas que respeito, admiro e que tem me inspirado muito ultimamente. Zulu, Vol. 1 do Zudizilla é uma das melhores obras dos últimos anos e, com toda certeza, a que me inspirou mais pro que eu tenho feito atualmente. E Nego Max é um monstro de flow, ideia e principalmente no palco. Tem uma energia que é difícil de não contagiar quem está por perto. Foi uma satisfação fazer essa em 2018 e lançar esse ano. Música boa é atemporal e eu acho essa bem boa.  

Relação com a música em tempos de pandemia

MM: Em uma entrevista recente ao Ecoar, KL Jay disse que se tinha algo que ele não estava fazendo neste momento era ouvir música. Por conta de tudo que está acontecendo, ele não se sentia bem ouvindo e performando música enquanto pessoas morriam. Você se sente assim? Como tem sido sua conexão com a música nesses tempos? 

KM: Se não fosse a música, seja ouvindo ou fazendo, não sei onde ou como estaria nesse momento. Tenho me isolado com ela desde o início disso tudo. Passamos por altos e baixos mas seguimos. É o que mais preciso nos tempos atuais.  

MM: Mais pro início da quarentena você lançou a faixa Sem Promessa. Você ainda anda produzindo muita coisa durante esse período?

KM: Tenho criado mais e melhor que nos últimos dois anos. Tô aproveitando essa criatividade boa pra dar andamento aos meus projetos principais e tentado expandir as ideias também em batidas e rimas. Sem Promessa nasceu de um desses processos.  

MM: Você ressaltou a importância que a música tem sido na sua vida neste momento e o quanto você tem estado inspirado para produzir novas canções. Tem considerado a possibilidade de lançar um álbum ou EP reunindo estes trabalhos? Podemos esperar isto para um futuro próximo?

KM: Quem acompanha minha caminhada sabe que estou fazendo um álbum chamado Mosaico há algum tempo, então a minha entrada nesse espaço pra fazer música é toda focada no aprendizado e no processo que tem esse disco como meta. Mas nem tudo vai pra esse projeto. Só não coloco prazo em nada porque algumas coisas não faz sentido lançar no momento em que vivemos e outras simplesmente tem seu tempo pra acontecer. O importante é que estou criando e não sou de criar em vão por vaidade ou apenas satisfação própria.

MM: Além da música, quais outras atividades tem te ocupado durante esse tempo em casa? 

KM: Tô no estúdio desde o início da quarentena, então nem tem outra atividade.  

Memórias da MTV e Sabotage

MM: Há cerca de 20 anos atrás você realizou uma das matérias mais icônicas do rap nacional, quando entrevistou o Sabotage, para o canal da MTV. Você se recorda bem desse dia? Foi durante a realização de um dos primeiros shows dele como artista solo.

KM: Eu fiz teste pra ser VJ do Yo!, indicado pelo KL Jay quando saiu do comando do programa. Ele indicou o meu nome e alguns outros, mas a MTV, acertadamente, queria o Thaide pra vaga e mostrou-se uma ótima decisão. A então diretora, Tatiana Ivanovici, me deu liberdade de sugerir e fazer o que eu quisesse como reportagem ou pauta pro programa e essa foi minha ideia imediata assim que ela me comunicou. Ela aceitou de cara, mesmo sem saber muito sobre, e agilizou pra matéria rolar. Sou grato a ela pela parceria e confiança. Que Deus a tenha em um bom lugar. E a conversa com o Sabotage foi uma extensão das ideias que já trocávamos quando nos encontrávamos por acaso. Sou grato por esse momento e pela repercussão dele. Valeu memo, Maurinho!  

MM: Além dessa, quais outras grandes memórias você carrega desse tempo como repórter?

KM: Nunca fui repórter, apenas era chamado pra algumas matérias. Principalmente quando eram entrevistados gringos. Pude entrevistar Bambaataa, Madlib, Dam Funk, Dead Prez, Assassin (França) e muitos amigos da cena brasileira, entre outros. Sou grato pelas ideias trocadas em frente às câmeras.  

Rima em Prosa é a coluna especializada em rap do Mais Minas. Nela, são publicadas notícias, matérias e entrevistas relacionadas à tudo de principal que tem ocorrido no rap nacional. Caso tenha gostado da entrevista com o Kamau, recomendamos a leitura de nossas matérias com Rashid, Edi Rock e Don L

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