Rima em Prosa #11: Em entrevista exclusiva, Don L fala sobre Costa a Costa, quarentena, novo single e protestos antifascistas

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Um dos nomes mais cultuados da cena brasileira, Don L consegue agradar do fã mais hardcore de rap até aquele seu amigo que você nunca imaginaria ouvindo o estilo. Com o seu antigo grupo, o Costa a Costa, foi condecorado em algumas edições do Prêmio Hutúz, a grande premiação do Hip-Hop brasileiro no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Além disso, já foi destaque de matérias do O Globo e da Rolling Stones, e o seu último álbum, Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3, foi eleito por um grande site especializado como o melhor disco do rap nacional nos últimos cinco anos. Músicas com grande apelo comercial como N.A.D.A.B.O.M. parte 2, Poesia Aústica 5 e Poetas no Topo 3.1 levaram o seu nome para outro patamar e o consolidaram como um dos favoritos do público, mas, como ele mesmo diz em suas letras, ele é mais do que isso, ele é o MC favorito do seu MC favorito.

Hoje, em entrevista exclusiva para a Rima em Prosa, Don L fala sobre seu novo single, sua opinião a respeito dos protestos antifascistas, o retorno do Costa a Costa e a cultura do cancelamento. Confira:

Kelefeeling e quarentena

MM: Seu novo single, intitulado Kelefeeling, acabou de ser lançado. A música veio acompanhada de um grande clipe, que trouxe um timaço na produção. Como se deu o processo de criação do clipe e da faixa?

DL: A faixa já estava escrita há uns tempos, e agora achei que era momento de lançar, então chamei meu time de produção para finalizar ela enquanto o time de produção audiovisual pensava no clipe, e a gente meio que fez as duas coisas paralelas, dentro dos limites que a gente tem de orçamento e dos que a pandemia impôs.

MM: Essa música foi produzida recentemente, com o clipe sendo gravado durante a pandemia. Como tem sido a sua quarentena? Tem conseguido manter sua mente e corpo bem?

DL: Eu tô tentando, na medida do impossível. A ansiedade com tudo que a gente tá passando me abala, como acho que tem abalado a maioria das pessoas. Todos os dias, a continuidade e aceleração do projeto de extermínio e exploração que fundou esse país surpreendem com o nível de violência que pode chegar. Já parece que não existe nenhum limite, ou melhor, já se sabe que não existe nenhum limite, e isso causa uma sensação de incerteza muito grande.

Roteiro Pra Aïnouz

MM: Neste mês de junho, Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3 completa três anos de seu lançamento. Apesar de já ter saído há um bom tempo, o disco ainda permanece aclamado, principalmente faixas como Aquela Fé e Eu Não Te Amo, que tem frases e versos relembrados nas redes sociais quase que diariamente. Isso mexe com você?

DL: Eu entendo que o estado de brutalidade que estamos vivendo escancara algumas coisas, torna elas mais fáceis de enxergar. Então coisas que eu já vejo e sinto há muito tempo se tornam mais óbvias pra mais gente. Não faço música pra se encaixar na moda do momento, mas pra tentar sintonizar com o espírito do tempo, então de certa forma, se eu for bem sucedido nisso, as músicas tendem a continuar crescendo.

MM: No rap atual, há uma grande discussão a respeito do tempo que alguns artistas levam para lançar seus trabalhos. Os seus discos costumam sair de forma bem espaçada, porém, há artistas que preferem lançar um álbum novo a cada ano. Como você interpreta essa questão? 

DL: Eu não acho que existe uma relação necessária entre o tempo e a qualidade não. Talvez exista entre a vivência e a qualidade, mas a vivência responde ao tempo de forma diferente do que a gente conta no calendário. Fora isso tem as condições materiais e a vida de cada um, a imprevisibilidade dos acidentes. Grana ajuda. O que torna a vida densa enriquece a arte, mas torna ela mais cara. E tempo é dinheiro pros capitalistas. Mas pra nós é o contrário, dinheiro é tempo. Pra acelerar precisa de grana, mas a grana custa tempo.

MM: Muito aguardado, o novo volume de Roteiro Pra Aïnouz está previsto para esse ano. Como tem sido a produção dessa nova obra? 

DL: Um nível acima do anterior em termos de condições pra produzir, de equipe. Tô feliz e empolgado com isso, vou poder realizar algumas coisas que não podia no anterior.

Costa a Costa e últimos feats

MM: Um dos grandes pedidos dos fãs de Don L e Nego Gallo, é que vocês coloquem a mixtape do Costa a Costa no Spotify e outras plataformas digitais. Há uma previsão para que isso ocorra?

DL: Ainda não, mas é já um consenso de que é um dos grandes clássicos do rap brasileiro, então uma hora vai acontecer.

MM: E um possível retorno do grupo, os fãs ainda podem sonhar?

DL: Se eu me permito esse sonho, não vou impedir alguém de sonhar igual, né?

MM: Antes desse novo verso livre, seus últimos lançamentos haviam sido duas participações: Airsoft, com Luiz Luins e FBC, e Desejos, com WillsBife e Sain. Como surgiram essas colaborações?

DL: Comigo as colaborações rolam de maneira orgânica mesmo, de uma troca de ideias, de uma admiração mútua dos trampos, como foi o caso do Luiz Lins, que sempre digo que é um artista que tenho grande admiração, caneta de ouro do R&B brasileiro. Existem os feats que a gente faz por negócio, para se colocar em certo mercado, e que devem ser minoria e eu fiz pouco na vida. Esses últimos foram por alguma afinidade com os artistas, os temas, a proposta musical etc.

Protestos antifascistas e opiniões

MM: Um assunto que está em alta no Brasil, nos últimos anos, é o cancelamento de artistas por conta de certos comportamentos e atitudes que desagradam o público. Qual é sua visão a respeito dessa “cultura do cancelamento”?

DL: Mano, isso é um assunto tão complexo que eu não tenho como sintetizar aqui numa resposta curta tudo que eu penso. Eu vi grandes injustiças acontecerem, vi os preconceitos do mundo jurídico real se reproduzirem no virtual, vi pessoas serem linchadas desproporcionalmente e isso causar grandes traumas, vi pessoas hipócritas linchando pessoas por coisas que elas também poderiam ser acusadas, e às vezes, algum tempo depois, foram mesmo; ao mesmo tempo em que também vi pessoas serem expostas por coisas que elas realmente mereciam ser expostas, mas onde o limite da punição foge totalmente do controle. É delicado e eu não tenho uma solução definitiva. Mas essa coisa de efeito manada, de julgamento relâmpago com cronologia confusa e punições perpétuas, é um bagulho sinistro. Ainda mais com essa coisa do virtual ser cada vez mais uma ciência manipulável e falseável, com bots, robôs, fakes, milícias virtuais e a porra toda que, por exemplo, elegeu esse genocida que é nosso presidente agora. Não sabemos lidar com isso ainda. É uma nova era e a gente é a cobaia de todas as merdas possíveis que podem acontecer com um experimento desse porte sem nenhum planejamento, em tempo real. Só posso dizer pras pessoas não serem gado.

MM: Você esteve presente nas manifestações que ocorreram no último final de semana, nos conte um pouco de sua experiência e opinião a respeito dessas mobilizações.

DL: Acho importante a gente botar a cara na rua, mas precisamos de muito mais gente. Precisamos de milhões de pessoas na rua pra fazer o que precisamos fazer.

MM: Em um vídeo publicado nas redes sociais, o Emicida deu sua opinião a respeito dos protestos e disse que não irá comparecer. Essa publicação rendeu muitos comentários e uma grande briga foi instaurada. Você chegou a assistir o vídeo? O que achou? 

DL: O Emicida colocou a opinião dele, que tem pelo menos um ponto que acho muito válido, e a repercussão que teve, a forma como foi respondida, na maioria das vezes individualmente e não em nome de coletivos, meio que prova esse ponto, que é sobre organização. Isso é um fato pra se pensar. Ele mesmo falou em nome de si próprio e não em nome de um coletivo organizado, as pessoas respondiam em nome de si próprias e não em nome de coletivos. No máximo vi pessoas que são mais empreendedores sociais, de favela, que tem uma capacidade boa de mobilizar pessoas, mas é outra fita. As pessoas precisam voltar a se organizar em coletivos e se politizar pra lutar por mudanças estruturais na sociedade, inclusive pra pensar em formas eficientes e inteligentes para enfrentar uma polícia e uma elite que internamente é muito mais violenta do que a norte-americana.

Obs: A entrevista foi realizada durante a realização dos grandes protestos antifascistas e antirracistas que ocorrem no Brasil e no mundo no início do mês.

Encerramento

MM: Por fim, deixe uma mensagem para o público do site que é fã do Don L.

DL: Agradeço a companhia na estrada, e peço pra que, se você leva minhas músicas pra sua vida, se elas fazem parte da sua vida, ajude a divulgar pra mais gente, pra que a gente possa continuar fazendo. Agora estou querendo fazer clipes e isso só vai ser possível se tiver muita gente inscrita no canal do Youtube, e os vídeos alcancem muita gente pra que eles possam se pagar. Outra forma de apoiar é comprando nossos produtos que estão disponíveis no site carovapor.com. Obrigado e até a liberdade!

Rima em Prosa é a coluna especializada em rap do Mais Minas. Nela, são publicadas notícias, matérias e entrevistas relacionadas à tudo de principal que tem ocorrido no rap nacional. Caso tenha gostado da entrevista com Don L, recomendamos as nossas matérias com Edi Rock, FBC e Rashid

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