Campeonatos estaduais: perder é ruim, mas vencer pode ser pior ainda

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Há uma máxima no futebol que diz que ninguém liga para quem vence os estaduais, mas ai de quem os perde. E isso é verdade. Quantos treinadores já não caíram após campanhas ruins no estadual, não é mesmo? Mas hoje trago outra reflexão: como as impressões deixadas nas boas campanhas em estaduais podem ser prejudiciais no decorrer das temporadas.

Muito criticados, os estaduais são as competições de menor peso disputadas no Brasil. Ainda assim, ocupam um terço do ano, durando, normalmente, de janeiro a abril. Os adversários muito mais fracos, a motivação mais baixa e o menor engajamento do torcedor, exceto nos clássicos locais, fazem com que o período se pareça com uma grande pré-temporada. Mas a pressão por resultados, as tentativas de agradar o torcedor a curto prazo e a falta de planejamento, fazem com que o modelo falho do estadual seja ainda pior utilizado pelos clubes.

E se perder o estadual, seja para os principais rivais, para times menores, ou em fases precoces é ruim, ganhá-lo quando se tem um time ruim pode ser ainda pior. Vejamos os motivos:

Problemas maquiados

Na década atual, tivemos seis rebaixamentos de clubes considerados grandes à Série B do Campeonato Brasileiro: Palmeiras (2012), Vasco (2013 e 2015), Botafogo (2014), Internacional (2016) e Cruzeiro (2019). Destes, três foram campeões estaduais no ano de suas quedas: Vasco, em 2015, Inter e Cruzeiro.

Campeonatos estaduais: perder é ruim, mas vencer pode ser pior ainda
Em 2016, Sasha fez a “Valsa dos 15 anos” para provocar o Grêmio, que nem sequer havia chegado na final do estadual; resultado ao fim do ano: Inter rebaixado e Grêmio campeão da Copa do Brasil – Crédito da foto: Ricardo Duarte/ Internacional

E apesar de serem alguns dos poucos momentos de felicidade nos anos em que aconteceram, tais conquistas tiveram influência direta na queda dos times.

Quando se tem um time fraco, enfraquecido, desgastado, ou com algum outro problema grave, ganhar o estadual, seguramente, é pior que perdê-lo. O nível técnico dos rivais costuma estar não uma ou duas, mas todas as prateleiras abaixo. Muitos dos adversários nem possuem divisão nacional. Os concorrentes mais fortes, normalmente os rivais históricos, protagonizam jogos “fora da curva, afinal, “clássico é clássico e vice-versa”, além de muitas vezes também estarem enfraquecidos. Mas como só um ganha o caneco, o perdedor recebe aquela aviso do destino que algo precisa mudar.

Cruzeiro de 2019

Um exemplo perfeito é o Cruzeiro de 2019, campeão estadual e que viria a ser rebaixado. Jogando num dos Campeonatos Mineiros de pior nível dos últimos anos, a Raposa terminou a primeira fase na liderança, com sete vitórias em quatro empates. Em muitos destes jogos, as atuações do time celeste foram sofríveis e quando a vitória vinha, era de forma nada empolgante. Nas fases seguintes vitórias tranquilas contra os times inferiores e na final, um título apertado contra o rival Atlético-MG.

Se tivesse caído nas quartas de final do estadual daquele ano, com certeza algumas coisas iam ser analisadas e mudadas na transição campeonato estadual x campeonato nacional. O Atlético, por exemplo, equipe derrotada na finalíssima, havia acabado de trocar de técnico, pelo mau desempenho apresentado na primeira parte do ano.

No Cruzeiro, a ilusão foi ainda pior pela fase de grupos da Copa Libertadores daquele ano, onde o time mineiro enfrentou adversários fracos e atropelou todos. Não há quem não achou que a Raposa seria favorita à conquista de simplesmente tudo em 2019. Por isso nada mudou e quando foi se perceber que o time realmente tinha problemas, técnicos, de filosofia, de montagem de elenco, deixando um pouco de lado as questões administrativas, já era tarde demais.

Cruzeiro 2020
Num Cruzeiro cheio de jovens, como é o de 2020, perder o estadual pode gerar uma corneta desnecessária, mas vencê-lo pode criar uma ilusão que pode ser perigosa; cautela tem que ser adotada e o torneio visto como preparação – Crédito da foto: Bruno Haddad/Cruzeiro

Tempo perdido

Com Inter e Vasco também foi assim. Estaduais comemorados com empolgação, depósito de confiança em jogadores que se provariam decepções e em modos de jogo que não funcionariam contra adversários mais fracos ou em sequência contínua.

É claro, em todos os casos houveram problemas extracampo que influenciaram nos resultados esportivos, mas da mesma forma que não se pode esquecer do externo na análise do interno, não pode se fazer o mesmo, esquecendo que decisões esportivas influenciam dentro do jogo.

O Cruzeiro chegou no meio do ano de 2019 acreditando que não precisava de jogadores para as pontas, pois Marquinhos Gabriel e David davam conta. O Inter caminhou boa parte de  2016 acreditando que Paulão e Ernando eram uma dupla de zaga aceitável e o Vasco ainda contava em seu elenco com jogadores com Bernardo, Rodrigo e Rafael Silva. Talvez uma oportunidade de ver a fraqueza dos elencos perdendo o estadual, ou já começando a temporada enfrentando adversários mais fortes, daria tempo para as lacunas dos elencos serem preenchidas. Mas nos casos, acabou sendo tarde demais e o tempo foi perdido com ilusões em conquistas vazias.

Leia também: Especial Campeonato Mineiro 2020: América, o eterno decacampeão mineiro

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