Bolsonaro diz “poder contar” como pai de presidente da OAB desapareceu na ditadura

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O Presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), atacou durante uma coletiva de imprensa, nesta segunda-feira (29), o atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz. O presidente da república afirmou “poder contar a verdade” sobre como o pai de Felipe desapareceu durante a ditadura militar. Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, pai do atual presidente da OAB, desapareceu em 1974.

“Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade”, disse Bolsonaro, sem ser questionado sobre o tema.

Fernando Augusto de Santa Cruz fazia parte de movimentos contra a ditadura militar, e foi preso em 1974 pelo regime. De acordo com o livro “Memórias de uma guerra suja”, de 2012, que conta sobre a ditadura militar no Brasil, Fernando foi incinerado no forno de uma usina de açúcar em Campos, no Rio de Janeiro.

O comentário de Bolsonaro se deu após o presidente fazer críticas contra a OAB durante o caso de Adélio Bispo. Adélio deu uma facada no atual presidente da república, durante a campanha eleitoral, em 2018. Em suas críticas, Jair Bolsonaro questionou: “Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados [do Adélio]? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB?”

Em junho, o presidente Bolsonaro deu, novamente, uma declaração sobre o sigilo telefônico de Adélio Bispo. Na época, Felipe Santa Cruz, em nota disse: “O presidente repete uma informação falsa, que inúmeras vezes já foi desmentida, de que o sigilo telefônico de Adélio Bispo é protegido pela OAB”.

O presidente da OAB, Felipe Santa Cruz se pronunciou sobre comentários do presidente Jair Bolsonaro. De acordo com ele, Bolsonaro demonstra: “traços de caráter graves para um representante: a crueldade e a falta de empatia”.

Resposta a Bolsonaro

Leia na íntegra a resposta do Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, aos comentários do presidente da república Jair Bolsonaro, sobre seu pai.

“Como orgulhoso filho de Fernando Santa Cruz, quero inicialmente agradecer pelas manifestações de solidariedade que estou recebendo em razão das inqualificáveis declarações do presidente Jair Bolsonaro.

O mandatário da República deixa patente seu desconhecimento sobre a diferença entre público e privado, demostrando mais uma vez traços de caráter graves em um governante: a crueldade e a falta de empatia. É de se estranhar tal comportamento em um homem que se diz cristão. Lamentavelmente, temos um presidente que trata a perda de um pai como se fosse assunto corriqueiro – e debocha do assassinato de um jovem aos 26 anos.

Meu pai era da juventude católica de Pernambuco, funcionário público, casado, aluno de Direito. Minha avó acaba de falecer, aos 105 anos, sem saber como o filho foi assassinado. Se o presidente sabe, por “vivência”, tanto sobre o presente caso quanto com relação aos de todos os demais “desaparecidos”, nossas famílias querem saber.

A respeito da defesa das prerrogativas da advocacia brasileira, nossa principal missão, asseguro que permaneceremos irredutíveis na garantia do sigilo da comunicação entre advogado e cliente. Garantia que é do cidadão, e não do advogado. Vale salientar que, no episódio citado na infeliz coletiva presidencial, apenas o celular de seu representante legal foi protegido. Jamais o do autor, sendo essa mais uma notícia falsa a se somar a tantas.

O que realmente incomoda Bolsonaro é a defesa que fazemos da advocacia, dos direitos humanos, do meio ambiente, das minorias e de outros temas da cidadania que ele insiste em atacar. Temas que, aliás, sempre estiveram – e sempre estarão – sob a salvaguarda da Ordem do Advogados do Brasil.

Por fim, afirmo que o que une nossas gerações, a minha e a do meu pai, é o compromisso inarredável com a democracia, e por ela estamos prontos aos maiores sacrifícios. Goste ou não o presidente.”

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